Oceano Ferly
A primeira obra que o lab fechou de propósito. Um globo do Pacífico onde a temperatura real do mar, medida por satélite, mexe nas ondas — e o primeiro passo do caminho que acabou na obra El Niño.
O render final (v7): 60 meses, de 2020 a 2024, em 30 segundos. NOAA OISST v2.1, 1° global, mensal.
Por que surgiu
Ela nasceu de uma frustração da obra anterior. A Memória Fluida era um volume de partículas, e no dia 25 de maio ficou claro que a imagem que se procurava era outra: não um volume, uma superfície. A descrição daquele dia:
mar muito revoltado, superfície do sol em erupção, bolhas, coisas andando — movimento lento, estética perfeita, textura, tridimensionalidade.
E uma pergunta que ficou como norte da obra: como o número consegue criar uma coisa assim? A ideia era que a temperatura do mar não virasse só cor — virasse comportamento: mar quente agitado, mar frio pesado.
Como ler o v7
- A cor é a anomalia: azul-gelo onde o mar está mais frio, fogo onde está mais quente, numa escala de ±5 °C. A referência é a média da mesma latitude naquele mês — não o normal histórico.
- A onda é a temperatura medida: mar mais quente, onda mais alta.
- O tempo corre meio segundo por mês; a faixa de baixo diz o mês e a temperatura mais alta do planeta naquele mês (34,79 °C em setembro de 2023).
Dois dias, quatro guinadas
- 25 maiConcepção: fluido de partículas no navegador, com a temperatura virando viscosidade.
- 25 maiO primeiro vídeo — partículas em WebGL2 (abaixo, “antes do globo”).
- 25 maiEntra dado real: 36 boias da NOAA no Atlântico Norte, 2020–2024.
- 25 maiGuinada pro Pacífico, depois de uma imagem da NASA sobre o El Niño de 2023–24: pela primeira vez o lab carrega um fenômeno com história.
- 26 maiGuinada total: o fluido em plano não fazia onda com crista. Nasce o globo 3D, renderizado na nuvem — sete versões em um dia, por centavos cada.
- 26 maiFechamento.
Por que parou
A estética não chegou onde se queria — e mesmo assim a obra foi fechada, de propósito. Nas palavras do fechamento:
continuar editando esse trabalho não geraria tantos ganhos de inteligência pra gente. Concluir me permite aprender com ele e seguir explorando essa textura em outro projeto.
Fechar por saturação do aprendizado, e não por perfeição, virou desde então a regra de fechamento do lab.
O que deixou
O globo, o dado de satélite OISST, a cor pela anomalia e a temperatura mexendo na onda. Dias depois o lab abriu a El Niño com a ordem de não partir daqui, para ver o tema com olhos novos — e ela acabou reencontrando quase tudo pelo próprio caminho. Hoje é navegável, com a série mês a mês até o presente. O lab guardou a lição: o que uma obra deixa precisa estar à mão de quem vem depois, ou será redescoberto do zero.
Em aberto
A anomalia é medida contra a média da mesma latitude, não contra o normal histórico de cada lugar — por isso a língua quente do El Niño de 2023 aparece menos do que deveria. O diário da época já anotava que a comparação com a climatologia seria a mais honesta. As texturas dos continentes eram provisórias, e a série para em 2024. São vídeos: não dá para girar o globo.